Sunday, January 13, 2008

Roupa a mais

Gostava de dizer que foi um fim de semana calmo e que pouco saí de casa...

Realmente, pouco saí de casa, mas tive uma ideia perigosa...

Reorganizar o meu guarda-fatos!

Literalmente.

Primeiro, arranquei-lhe as portas.

Sim, portas para quê?

Bem, realmente elas têm espelhos bem grandes que até dão jeito, mas no sítio onde estavam, não ajudavam lá muito, de modo que tirei as portas fora e as coloquei noutros pontos do quarto.

Depois tirei a roupa cá para fora e levei-a para a sala. Fiz uma pilha de roupa em cima do sofá.

Tinha imensa roupa por passar a ferro, de modo que lá peguei na tábua, liguei o ferro e comecei a trabalhar...

Horas depois, 25 camisas estavam passadas e penduradas nos cabides.

Depois?

Depois foi a vez das t-shirts.

E não, eu não tenho só t-shirts pretas!

E, para dizer a verdade, tenho t-shirts a mais...

À medida que ía dobrando roupa, sentia-me como o dono de uma loja, que fecha uma vez por ano só para fazer inventário.

- Mas como será que cheguei a este ponto? - perguntava-se ele - Será que a dada altura deixei de passar roupa a ferro e passei a comprar em vez de a passar?

Havia, realmente, um mistério no ar.

Peça após peça de roupa, o sofá começou novamente a vislumbrar o mundo e a respirar sofregamente (sim, que ele não está habituado a tanto tempo sem respirar).

A dada altura encontrei uma t-shirt que não era minha...

- Lá está! É muita roupa porque há aqui roupa que não é minha...

Com estas palavras olhei em redor e refiz o meu pensamento:

- Nã... Uma t-shirt em 96 não é desculpa...

Sim.

96.

Conforme via que o molho de t-shirts por dobrar chegava ao fim, olhava para a pilha das calças e agasalhos e dizia mal da minha vida pela minha triste ideia...

Horas mais tarde e quatro gavetas estão repletas de roupa interior.

No armário, por baixo dos cabides, várias pilhas de roupa lado a lado... Roupa de cama, toalhas, agasalhos, t-shirts...

E agora, onde colocar o resto?

A necessidade começa a aguçar o engenho e novas hipóteses surgem no meu cérebro...

- OK, ainda há ali os armários embutidos junto ao tecto... E ainda há espaço debaixo da cama, onde posso arrumar roupa fora de época dentro das malas e sacos de viagem...

Dito e feito, alguma roupa vai parar a sacos de viagem debaixo da cama...

É engraçado que quando era miúdo nunca tive medo do que havia debaixo da cama, mas agora tenho...

Uma pequena reorganização, algumas gavetas a queixar-se que estão a ter mais trabalho que o costume e mais uma epifania na minha mente:

- Não admira que nenhuma miúda se mude para cá... Onde raio é que ela iria meter a roupa?

De repente, uma breve pausa a imaginar a possibilidade de morar com uma miúda que não tivesse roupa...

E novo regresso ao trabalho!

De vez em quando, um novo desafio...

Onde colocar uma toalha de praia? Uns calções? Então e os casacos? E os fatos de treino? De quem é este saco-cama?

Penduro fatos e gravatas, arrumo o calçado e, passo a passo, tudo começa a estar organizado e a fazer sentido...

E de repente, aquele som horrível...

Ou melhor, a horrível ausência daquele som...

A máquina de lavar tinha terminado! Vinha aí uma nova remessa!

Puxo do estendal, estendo a roupa e dou-lhe instruções para não secar depressa.

Dito isto, entro no quarto, olho para o cesto de roupa para lavar, que está quase cheio e sinto a tristeza percorrer-me conforme me apercebo de que ainda vou ter que fazer mais uma máquina...

Encontrar algo no guarda-fatos torna-se uma tarefa mais simples, mas também mais arriscada... Na minha cabeça ouvem-se as palavras que prenunciam o desastre:

- Se esta pilha de t-shirts tomba morro aqui sufocado e só dão comigo daqui por uma semana...

Ou talvez mais cedo, que ouvi dizer que faço falta na empresa.

De repente, mais uma má notícia: algumas das últimas t-shirts escondiam ainda mais uma carrada de meias!

- Ah, malditos Natais numa família com tantas tias... E agora? Como é que as vou meter nas gavetas e fechá-las se já para as abrir vou ter dificuldade?

Conforme me sinto a terminar, uma dezena de calças olha ainda para mim e queixa-se:

- Então e nós?

Aproximo-me e pego nelas.

Uma delas grita-me:

- És um dono horrível! Já nem te lembravas de mim! Somos tão giras e nunca nos vestiste!

Eu respondo:

- Também não vai ser agora, que engordei um bocadito e já não me serves... Mas prometo que vou fazer exercício só por tua causa!

Com estas palavras pouso-as numa cadeira no meu quarto sem lhes dar hipótese de resposta e sigo novamente para a sala.

Pego nas meias que faltam e dobro-as.

Algumas são iguais mas parecem ter decidido desenvolver tonalidades diferentes só para me dar cabo da vida...

Eu vou associando os pares e também mudo de cor algumas vezes...

Termino, olho para a roupa que falta e anuncio:

- Muito bem... Quem não fizer parte de um grupo que já tenha local de repouso está em maus lençóis...

Algumas sweat-shirts encolhem-se e fazem-se passar por t-shirts.

Como já há pouca roupa sinto-me mais bem disposto e decido deixá-las ir para a segunda pilha de t-shirts sem grande alarido... Pelo menos sempre ajudam a amparar a primeira...

Verdade seja dita, sempre que saio do quarto e entro na sala, parte de mim contorce-se, à espera de ouvir o som das t-shirts a cair...

Nisto, sinto que falta qualquer coisa...

- Os meus kimonos? OK, provavelmente estão num daqueles armários de cima... Mas não os vou abrir, que tenho medo...

À medida que tudo começa a estar no lugar, tento não pensar na mochila com roupa que deixei em casa de alguém, na passagem de ano, e para a qual ainda vou ter que arranjar espaço...

O sofá fica finalmente vazio...

Tudo está no lugar...

Respiro fundo e entro no quarto...

Sento-me na cama...

Olho para o guarda fatos...

E penso...

- Mas que raio vou eu vestir amanhã?