Wednesday, February 06, 2008

112

Nesta altura em que tanto se fala do serviço nacional de urgências, também eu vos vou contar a minha experiência quando precisei deles.

Poupando-vos a pormenores, depois da mais tortuosa queda de bicicleta da minha vida, levei as mãos aos punhos da dita, para me levantar.

A minha mão esquerda foi ter ao guiador.

A minha mão direita foi ter à minha perna.

O guiador estava lá dentro.

Depois de puxar o punho da bicicleta para fora e de gritar desalmadamente, consegui alcançar o telemóvel e, em estado de choque, marcar o 112.

- Sim? Eu caí de bicicleta e espetei o guiador na perna!

- Calma, onde é que você está?

- Estou em XXXXXXXXXXX.

- E o que é que lhe aconteceu?

- Caí de bicicleta e espetei o guiador na perna!

- E agora, precisa de uma ambulância, é?

Já me fizeram perguntas parvas...

Mas esta bateu todos os recordes.

Tal foi a surpresa de receber a pergunta que o meu cérebro ponderou a possibilidade e a minha boca proferiu as seguintes palavras:

- Deixe-me ver como é que eu estou...

Fiz uma força descomunal, como faria nas semanas seguintes para o mais pequeno dos gestos, levantei um pouco a cabeça e o tronco, olhei para a minha perna e tornei a ver, na minha perna, junto à virilha, um buraco do diâmetro do punho da bicicleta, tão profundo que o Sol de uma tarde de Verão não iluminava o suficiente para que lhe pudesse ver o fundo.

Dali eu não saía. Dali eu não me mexia.

Deixei-me cair para trás.

- Estou? Estou?

Do outro lado, a chamada tinha sido desligada, provavelmente porque alguém achou que se tratava de uma chamada falsa, e do meu lado, um jovem de 20 e poucos anos, em estado de choque, nem sequer tinha a ideia de tentar ligar outra vez e se esvaía em sangue numa estrada deserta.

Valeu-me um homem que conduzia a sua carrinha por aquela estrada para fugir ao trânsito.

Parou, saíu, levantou-me, meteu-me na carrinha e arrancou como um louco em direcção ao hospital.

Era uma Quinta-feira.